Hoje deixo vocês com um excelente artigo do site Quackwatch.
"
-
Dietas Pobres em Carboidratos
Stephen Barrett, M.D.
Muitos dos que divulgam esquemas dietéticos tentam nos fazer acreditar que uma
substância especial ou uma combinação de alimentos automaticamente resultará
em redução de peso. Isso simplesmente não é verdade. Para perder peso, você
deve comer menos, ou exercitar-se mais, ou ambos.
Há cerca de 3500 calorias em cerca de 455 g (1 libra) de peso corporal. Para perder uma
libra por semana, você deve consumir cerca de 500 calorias a menos por dia daquilo
que você metaboliza. A maioria das dietas da moda, se seguidas de maneira
precisa,
resultarão em perda de peso -- como um resultado da restrição calórica. Mas
elas são invariavelmente monótonas demais e algumas vezes são perigosas demais para
uso a longo prazo. Além disso, as pessoas que seguem essas dietas se não
adotarem melhores
hábitos alimentares e de exercícios recuperarão o peso perdido -- e
possivelmente mais.
A maneira mais drástica de reduzir a ingestão calórica é parar
completamente de comer. Após alguns dias, as gorduras e proteínas do corpo são
metabolizadas para produzir energia. As gorduras são quebradas em ácidos
graxos que podem ser usados como combustível. Na ausência de carboidratos
adequados, os ácidos graxos podem ser metabolizados de maneira incompleta,
produzindo corpos cetônicos e por conseguinte cetose. O jejum prolongado não
é uma medida segura, porque faz com que o
corpo comece a digerir as proteínas dos músculos, coração e outros órgãos
internos.
Dietas pobres em carboidratos também produzem cetose. Assim que se inicia,
grandes quantidades de água serão perdidas, levando a pessoa a pensar que
está acontecendo uma redução significativa de peso. Entretanto, a maior parte da
perda é de água ao invés de gordura, a perda de água é recuperada rapidamente
quando a pessoa volta a comer normalmente. O apetite, freqüentemente reduzido durante a
cetose, também retorna quando uma dieta balanceada é retomada.
A maioria das dietas pobres em carboidratos não tentam limitar a
ingestão de proteínas, gorduras ou calorias totais. (Em outras palavras, seu
teor de gordura tende a ser muito alto.) Os promotores desses métodos alegam que
ao desequilibrar a dieta faz com que aumente o metabolismo de gorduras não desejadas mesmo
não havendo restrição de calorias. Isso não é verdade, mas é provável que
ocorra redução de
calorias ingeridas porque a monotonia da dieta tende a desencorajar
excessos na alimentação.
A dieta pobre em carboidratos mais amplamente utilizada é a dieta defendida
pelo falecido Robert C.
Atkins, M.D., de Nova York. Seu livro de 1972 "A Dieta Revolucionária do Dr.
Atkins"
vendeu
milhões de cópias nos dois primeiros anos. Sua atualização de 1992, "A Nova
Dieta Revolucionária do Dr. Atkins", vendeu ainda mais. O plano atual tem quatro
passos: um período de "indução" de 2 semanas, durante o qual o
objetivo é reduzir a ingestão de carboidratos para menos de 20 gramas por dia, e
três períodos durante os quais a ingestão de carboidratos é progressivamente
elevada porém mantida abaixo do que Atkins chamava de "seu nível crítico de
carboidratos" para perder ou manter peso [1]. É permitido a pessoa que
está fazendo a dieta comer
quantidades ilimitadas de alimentos que não sejam carboidratos "quando com
fome", mas a cetose tende a reprimir o apetite. O plano pede para que se
cheque os
corpos cetônicos da urina para assegurar que o nível desejado de cetose seja
atingido. Atkins também recomendava grandes quantidades de suplementos
alimentares.
O Conselho de Alimentos e Nutrição da Associação Médica Americana (AMA)
[2],
Consumer Reports [3], e muitos especialistas têm
advertido que a ingestão ilimitada de gorduras saturadas proposta pelo plano alimentar de
Atkins pode aumentar o risco de doença cardíaca na pessoa que está
seguindo a dieta. No 2000,
especialistas da Universidade do Kentucky fizeram uma análise computadorizada
de uma determinada quantidade de menus de uma semana e relataram:
- A dieta contém 59% de gordura.
- A dieta propicia menos porções de grãos, vegetais, e frutas do que o
recomendado pelas Diretrizes Alimentares dos EUA.
- Embora a dieta possa resultar em perda de peso a curto prazo, é provável
que o uso a longo
prazo aumente o risco tanto de doença cardiovascular como
de câncer [4].
Outro estudo recente foi realizado por pesquisadores do
Bassett Research
Institute em Cooperstown, New York, que acompanhou 18 seguidores da dieta de Atkins
por um mês. Durante o período de indução de duas semanas, as pessoas consumiram 1.419 calorias por dia,
comparado com as 2.481 calorias por dia antes
de começarem a dieta, e perderam em média cerca de 3,6 Kg. Na próxima fase,
elas consumiram em média 1.500 calorias por dia e perderam um adicional de 1,3
Kg
em duas semanas. As pessoas em ambas as fases cortaram os carboidratos em mais
de 90%, mas as quantidades reais de gordura e proteína que elas comeram
mudou pouco. Alguns pacientes se sentiram cansados, e alguns estavam nauseados
devido a dieta. A maioria indicou que estava ávida para voltar as suas dietas
regulares [5].
Outro estudo descobriu que (a) 41 pessoas acima do peso que seguiram a dieta
de Atkins por seis meses perderam em média 10% de seu peso corporal inicial;
(b) a maioria diminuiu seu nível sangüíneo de colesterol em 5%; (c) alguns
aumentaram seu nível de colesterol; e (d) 20 sujeitos que continuaram o
programa mantiveram sua perda de peso ao final de um ano [6].
Já em outro estudo, pesquisadores que compilam o
National
Weight Control Registry analisaram as dietas de 2.681 membros que tinham mantido no
mínimo uma perda de peso de 13,6 Kg por um ano ou mais. Como a dieta de Atkins
tem sido utilizada por mais de 30 anos, os pesquisadores raciocinaram que, se
ela funcionasse, seus seguidores deveriam estar em um número significativo. Entretanto, eles
descobriram que menos de 1% dessas pessoas de sucesso tinham seguido uma dieta
com menos de 24% ou menos de suas calorias diárias na forma de carboidratos. A duração
média de manutenção de peso bem-sucedido nesse grupo pobre em
carboidratos foi de 19 meses, ao passo que a duração média de pessoas que
consumiram mais de 24% de suas calorias diárias como carboidratos foi de 36
meses. Devido ao fato de que tão poucos seguidores de Atkins foram encontrados no
Registro, os
pesquisadores concluíram que a dieta de Atkins pode não criar a favorável
"vantagem metabólica" que se alega ter [7].
O comitê de nutrição da
American Heart Association publicou um
alerta científico de que dietas ricas em proteínas não foram comprovadas como
eficazes e apresentam riscos à saúde. O relatório cobre as dietas de Atkins,
Zone, Protein Power, Sugar Busters e Stillman. O comitê declarou:
- Tais dietas podem produzir perda de peso a curto prazo através de
desidratação.
- Perda de peso também pode ocorrer através da restrição calórica
resultante do fato de que as dietas são relativamente intragáveis.
- O alto teor de gordura pode ser prejudicial ao sistema cardiovascular ao
longo do tempo.
- Qualquer melhora nos níveis de colesterol sangüíneo e controle da
insulina seria devido a perda de peso, e não à mudança na
composição.
- Uma dieta de alto teor de proteínas é especialmente perigosa para pacientes
com diabetes porque pode acelerar a progressão da doença renal diabética
[8].
Em 1999 Atkins formou uma
fundação
para fornecer "fundos para pesquisa
e educação sobre o papel de protocolos nutricionais de controle de
carboidratos no tratamento e prevenção de uma grande variedade de
doenças". [9] Em 2002, um estudo de 6 meses financiado por Atkins
descobriu que seguidores da dieta de Atkins perderam mais peso do que
pessoas
comparáveis com uma dieta rica em carboidratos e melhoraram seus níveis
de colesterol
e triglicerídeos sangüíneos [10]. Entretanto, a taxa de abandono da
dieta foi muito maior no grupo
pobre em carboidratos e a melhora nos níveis de lipídios não significa
necessariamente que a dieta teria uma efeito cardioprotetor a longo
prazo [11].
Em resposta a publicação do estudo, a
American Heart Association (AHA)
advertiu:
- Uma alta ingestão de gorduras saturadas com o passar do tempo levanta
grandes preocupações quanto ao aumento de risco cardiovascular. O estudo
não acompanhou os participantes tempo suficiente para avaliar isso.
- Na verdade o estudo não comparou a dieta de Atkins com as recomendações
dietéticas atuais da AHA [12].
Em 2003, especialistas que avaliaram trabalhos indexados desde 1966 no
MEDLINE descobriram que perda de peso esteve associado com uma dieta de maior
duração e restrição calórica mas não com redução no conteúdo de
carboidratos. Os pesquisadores concluíram:
Há evidência insuficiente para fazer recomendações a favor ou contra o
uso de dietas pobres em carboidratos, particularmente entre participantes com
mais de 50 anos de idade, para deita com tempo superior a 90 dias, ou para dietas de
20 g/dia ou menos de carboidratos. Entre os estudos publicados, participantes
que perderam peso enquanto faziam dietas pobres em carboidratos esteve principalmente
associado com diminuição da ingestão calórica e aumento da
duração da dieta mas não com a redução do conteúdo de carboidratos [13].
Atkins morreu em abril de 2003 por complicações de um traumatismo craniano
[9].
Concluindo
Embora estudos de curto prazo tenham descoberto que dietas pobres em carboidratos
possam produzir perda de peso, nenhum estudo demonstrou que tais dietas sejam
seguras ou eficazes para uso a longo prazo [11-15]. Atkins defendeu sua dieta por
mais de 30 anos e declarou que mais de 60.000 pacientes tratados no seu centro
usaram a dieta como protocolo primário. Entretanto, ele nunca publicou qualquer
estudo no qual pessoas que usaram seu programa fossem monitoradas por um
período de vários anos. A obtenção de informações pode ser feita de
maneira bastante simples e barata enviando pelo correio um questionário e
tabulando os resultados. Por que você acha que ele nunca fez isso?
Referências
- Four
steps to a healthy new lifestyle. Atkins Center Web site, accessed April
29, 2001.
- White PL. A critique of low-carbohydrate ketogenic weight reduction
regimens: A review of Dr. Atkins' diet revolution. JAMA 224:1415-1419, 1973.
- Top-selling diets: Lots of gimmicks, little solid advice. Consumer Reports
63:60-61, 1998.
- Anderson JW and others. Health
advantages and disadvantages of weight-reducing diets: a computer analysis
and critical review. Journal of the American College of Nutrition
19:578-590, 2000.
- Miller BV and others. Effects of a low carbohydrate, high protein diet on
renal function. Obesity Research 8(supplement 1):82S, 2000.
- Hellmich N. Success
of Atkins diet is in the calories. USA Today, Nov 8, 2000.
- Wyatt HR and others. Long term weight loss and very low carbohydrate diets
in the National Weight Control Registry. Obesity Research 8(suppl 1):87S.,
2000.
- St. Joer TS and others. Dietary
protein and weight reduction. Circulation 104:1869-1974, 2001.
- Robert
C. Atkins, M.D., world-famous nutrition expert and best-selling author dies
at 72. Atkins Center news release, April 17, 2003.
- Westman EC and others. Effect
of 6-month adherence to a very low carbohydrate diet program. American
Journal Medicine 113:30-36, 2002.
- Fumento M. Hold the lard:
The Atkins diet still doesn't work.
- American
Heart Association statement on high-protein, low-carbohydrate diet study
presented at scientific sessions. American Heart Association press
release, Nov 19, 2002.
- Bravata DM and others. Efficacy
and safety of low-carbohydrate diets: A systematic review. JAMA
289:1837-1850, 2003.
- Blackburn GL. Making
good decisions about diet. Weight loss is not weight maintenance.
Cleveland Clinic Journal of Medicine 69:864-866, 2002.
- Westman EC, Volek JS. Very-low-carbohydrate
weight-loss diets revisited. Cleveland Clinic Journal of Medicine
69:849-862, 2002.
"
URL:
http://quackwatch.haaan.com/lcd.html